Rolf

CARTA PARA UM AMIGO

Dizem que os cães são anjos disfarçados, enviados por Deus á terra, para ensinar aos homens o quê é lealdade.
Um anjo de nome Rolf me ensinou muito mais, era mestre pós´ graduado nesta matéria e em tantas outras.
Um Lorde em forma de cão; um anjo sem asas.
E como anjo levantou vôo, pois tinha a leveza de alma para flutuar…
Falou, pois tinha sabedoria, humildade, lealdade e sensibilidade em demasia.
Protegeu´me, guiou´ me, iluminou´ me guardou´me, pois tinha luz própria como tem os anjos.
Ensinou´me tantas coisas e principalmente, mostrou´me como são os amigos verdadeiros.
Nenhum ser humano é para mim, tão disponível, tão atencioso, amoroso e gentil; nenhum ser humano olha para mim com tanto amor, tanta amizade, tanto afeto e tamanha cortesia, quanto meu anjo cão o fazia.
Era meu amigo, simplesmente isto.
Não precisava dizer nada, ele estava sempre ali, procurando por mim, querendo dar e receber afeto.
Um amor desmedido, incontido, incondicional!
.Era uma cumplicidade silenciosa… minha sombra!
Amigo Rolf perdoa´me se tantas vezes fui insensível, não dando o afago que você tanto queria.
Perdoa´me se ergui a voz, quando você já doente, não tinha mais a audição e visão aguçadas e por isto ficava desorientado.
Perdoa esta amiga que, não te deixou passar frio, fome ou dor; mas que não te deu o carinho, o afeto, a atenção que você merecia;. Tampouco demonstrou gratidão e não teve consideração e compreensão ,quando você já velho, cansado e doente, não mais possuía a saúde o vigor e a beleza dos primeiros anos de vida.
Perdoa esta amiga que não olhou prá você com olhos cuidadosos e atentos, quando seus gestos, seu olhar, seu isolamento mostravam tão claramente a sua agonia.
Perdoa caro amigo, se fui negligente ,quando sua doença foi chegando, se alojando, se agravando a cada dia e eu dizendo: Ah! É assim mesmo! Ele está velho!
Você já não fazia as poses engraçadas que costumava fazer, para expor a barriga ao sol. Já não tinha o apetite voraz. E já não andava com aquele porte altivo, marchando, com o rabo retesado de satisfação.
Tornou´se triste a cada dia, perdeu o brilho do olhar e a vontade de viver, mas jamais reclamou…
Não queria me incomodar, me dar trabalho ou me fazer sofrer; sua grande sensibilidade com certeza o deixava sentir minha fragilidade.
Quando o vi pela última vez, você estava cansado, ofegante, pois o ar lhe faltava.
Não abanou o rabo, não se mexeu, não tentou se levantar como quê pedindo; me leve para casa!
Não fez nenhum movimento, apenas me lançou um olhar suave e eu pude ver o amor que ainda vinha dos seus olhos, como se quisessem me dizer; não chore, não se culpe, está tudo bem…
Acariciei sua cabeça, disse sinceramente o quanto te amava e o quanto você era especial para mim.
Mesmo assim, já era tarde demais, você já estava indo para outro plano.
Dava como encerrada sua missão nesta vida.
Deixou que eu saísse de perto para partir, pois mais uma vez quis aliviar meu sofrimento, me poupar.
Que grande amigo você foi!
Ficou em mim uma grande saudade, um vazio difícil de ser preenchido; uma ferida que vai demorar a cicatrizar.
Você partiu elegantemente, como um Lorde que foi a vida inteira.
Deixa´me a lição de que preciso aprender a cuidar mais daqueles que me amam.
Confesso á você amigo, como fiz tantas outras vezes; não sou sábia o bastante para amar, ou demonstrar meu amor no presente do mesmo modo que amo quando se torna passado.
Descanse em paz amigo querido!
E se é que a reencarnação seja possível, que eu tenha o privilégio de ser escolhida novamente para ter a sua companhia, seu amor, amizade e lealdade.
Seja em que forma for que você venha em outra vida, venha exatamente como veio nesta.
Adeus!