Pandora

Pandora

Você me ensinou a amar de verdade. Ensinou-me que amor é cuidar, proteger, se preocupar.
Eu quis você e lutei por você. Sabia que era difícil, arisca e brigona. Miava desesperadamente só de chegar perto. Mas eu orei por você e pedi a Deus que nos desse força para superar essa barreira.
E superamos. Com muito cuidado e carinho, você criou confiança em mim. E eu em você. Foram algumas noites silenciosas, trancadas no quarto para que você se acostumasse comigo. Em uma destas noites, eu lendo um livro, você se aproximou, colocou a patinha na minha barriga e me olhou como se perguntasse: “Posso subir aqui?”. Eu não respondi. Continuei lendo o livro. Você subiu. E foi o momento mais magico de nossas vidas. Você não sabia o que fazer de tanta alegria. Virava pra cá e virava pra lá, até a euforia passar e você dormir. Foi assim que nossa relação de respeito e amor mútuo começou. E durante estes dois anos, você continuou com o hábito de dormir na minha barriga. Como se eu fosse sua mãe e você tivesse saído de mim. Eu te entendia e você a mim. Você me olhava e eu sabia que era um olhar de amor. Eu sussurrava no seu ouvidinho: “Amo você Pampam, você é o amor da minha vida”. E você se derretia.
Miava de madrugada, me pedindo pra virar de barriga para cima, pois você queria dormir em cima de mim. Sufocava-me, pois queria deitar coladinha no meu pescoço. E ronronava para mim, me dizendo que estava muito feliz. E eu cheirava sua orelhinha agradecendo por ser tão amorosa.
Rolava no chão, dando cambalhotas ao ouvir o barulho do carro chegar. Eu e você ansiosas para nos ver no final do dia. Quando estava no quintal e eu falava com você da janela, você miava e corria para dentro ao meu encontro, só pra me dar cabeçadinhas e me dar amor. Amor que nunca senti antes. E quanto amor você tinha para nos dar. Parecia que queria amar até o último e aproveitar ao máximo, pois partiria em breve.
E foi de repente. Adoeceu. Ficou amoada, deitadinha no canto. Saí de casa e estava tudo bem e te encontro mal um dia depois. Muito debilitada, ainda conseguiu descer da cama e me encontrar no corredor. Dali fomos para o hospital. Não tinha ideia que era tão grave. Mas no momento em que você foi internada, eu já sentia. Você ia me deixar.
Você se foi e me deixou sozinha. Deixou um buraco no coração e na minha alma. Deixou momentos não vividos e carinhos não trocados. E dói. Dói demais porque você foi especial. Você me fez sentir especial. E eu me pergunto: “É justo isso?”, “Onde está Deus?”. Perguntas sem respostas.
Sentir seu corpinho gelando aos poucos me gelou por dentro também. Estou inconformada e a saudade está muito forte. Eu quis te proteger de todo o mal lá de fora, mas não fui capaz de perceber o mal que crescia dentro de você. E dos outros também. Sei que a jornada será dura daqui pra frente, mas farei o possível.
Tudo que eu desejava era te ter na minha barriga uma ultima vez. Ou pelo menos te ter nos braços quando você se fosse, mas não foi possível. Sussurrei no seu ouvidinho “Vai com Deus. Mamãe te ama infinitamente. Cuida dos seus irmãos de lá de cima. Sinta meu amor e vá em paz. Estaremos juntas um dia”.
O que vai ser daqui para frente eu não sei. Mas eu não sou a mesma sem você, Pandora, minha paixão!