Negrinho

Foram pouco mais de nove anos. Uma eternidade e uma efemeridade ao mesmo tempo. Da chegada em um pequeno trapo ao fechar seus olhos no colo de sua “mãe”, sem um gemido ou sequer um tremor, se passaram mais de nove anos, mas na realidade foram pouco mais de cinco minutos.
Quando se ama, o tempo não passa. A cada dia, o prazer da convivência, as demonstrações de carinho e o eterno ar de gratidão fazem com que se ame cada vez mais. Um amor verdadeiro, que faz com que as diferenças entre o cão e o homem praticamente inexistam. Passa a ser apenas amor, e este não tem idade, sexo, cor e, descobre´se de repente, nem diferença de animal para humano. Simplesmente amor.
Te agradeço, meu amigo e meu amor, todas as alegrias que você me deu em tua curta vida. Dos presentes diários quando de minha chegada em casa, os beijos de língua sempre constantes, o “rebolabola”como tua mãe sempre dizia, os gemidos doídos de sua manifestação da saudade que sentia, as noites que passou aninhado em minha cama, a impaciência na porta do churrasqueiro quando me via chegar com carvão ou escutava a palavra churrasco, a corrida para a escada quando escutava a frase, “vamos assistir um filme?”.
Negrinho, Nego, Negão. Te vi crescer, ficar grisalho, engordar, ficar doente do coração, diabético, até sofrer com tuas doenças, mas nunca te vi ficar triste e de jeito nenhum gostaria de te ver morrer. Graças a DEUS não vi, nem te vi morto depois, pois quero te lembrar moleque, amigo, carinhoso, glutão e cheio de vida. Não agüentaria te chamar e você não responder.
Sempre te tratei de “meu filho”, pois me considerava teu pai, tanto era o amor que eu sentia por você, que agora vai virar saudade. Tão doída como a que você sentia por mim.
Espero e torço para que tenham razão aqueles que crêem na existência da alma nos animais, como eu. Afinal, se assim for, pela minha crença espírita devera existir também a reencarnação, e talvez venhamos a nos encontrar em outras vidas. Talvez você como humano e eu como cão, não sei. Mas, se isso ocorrer, tenho a certeza de que imediatamente ao nos encontrarmos, haveremos de intuir nossa existência anterior, e haveremos de continuar nossa estória de amor. Mais longa, espero.
Obrigado por tudo, e que DEUS e os Santos te recebam em seu Reino, meu amigo e meu filho, pois os Anjos o levaram.
Teus pais Miguel e Araci e teus irmãos Othavio e Thiago, que sofrem muito com a tua falta. E do Luk e da Kitti, que te procuram a todo o momento, te esperando na porta como se você fosse ainda chegar.