Mell

MELLZINHA
Dois anos, sete meses e dezesseis dias. Esse foi o tempo concedido à Mellzinha para nos fazer felizes. Foi o curto tempo que ela viveu,
Sim. Felizes.
Ou melhor, dizendo: muito felizes!
Se essa foi a sua missão nessa existência, ela a realizou com maestria.
Na sua doce condição de cachorrinha, soube como poucos humanos sabem, alegrar e acarinhar corações.
Meiga, sensível e amorosa, a todos respondia alegremente. “Sempre sorrindo”, eu dizia, “Sempre sorrindo”. No seu semblante percebia´se essa alegria constante.
Quando nos ausentávamos de casa, mesmo por poucas horas, ela e sua mãe Nina nos esperavam, armazenando a saudade que “explodia” com a nossa chegada.
A alegria era tanta que ela se descontrolava: pulava para nosso colo, latia chorando, nos beijava do jeito que podia, ou seja, lambendo nosso rosto, corria desesperada! Parece que todas essas atitudes não lhe bastavam para nos demonstrar o quanto ela estava feliz com nosso regresso.
Como esquecer aquele jeitinho doce com que vinha todas as manhãs me dar bom dia, me acordando com seus beijos? Depois ficava deitadinha ali, bem pertinho, esperando meu carinho.
E as brincadeiras de morder a Nina,“de mentirinha”? Ela provocava, dava um passinho para trás e se jogava sobre sua mãe. As duas rolavam no tapete, e as mordidinhas (acredito que correspondem às cócegas dos humanos) duravam até ficarem exaustas. De vez em quando ela me olhava, abanava seu rabinho e dizia com aquele olhar maroto: “Viu que brincadeira gostosa?”
A Mell foi minha companheirinha inseparável.
Sempre ficava ao meu lado e quando estava ocupada, ela mantinha certa distância para não me atrapalhar nas minhas tarefas, mas sempre me olhando e esperando meu sorriso para me responder com aquela abanadela de rabo e aquela corrida desenfreada para me beijar. Bastava que dissesse: “querida”, e ela vinha, cheia de amor, correndo, com aqueles seus passinhos curtos, tão bonitinhos!
À noite, quando chamava as duas para irem dormir , ela sempre obediente, era a primeira a ir para sua caminha. Deitava´se de lado, como um bebê, esperando o meu carinho de Boa Noite. E, em suas lambidinhas, em seus próprios lábios, eu entendia sua resposta: “Boa Noite para você também!”
Era muito curiosa. Ao encontrar alguma porta de armário aberta, lá se enfiava para investigações. Uma verdadeira criança!
Acho que a meiguice da Mellzinha foi bem mais forte que o instinto de conservação, próprio dos cães, que os fazem brigar pelo alimento. Ela nunca ia se alimentar antes de sua mãe e para ela ficava olhando, esperando”educadamente” a sua vez. Eu, então as servia, separadamente,
porque aquela atitude humilde da Mell me incomodava muito.
O mesmo acontecia com as brincadeiras com bolinhas. Mãe e filha corriam para apanhá´las. Mas, como sempre, a Mell, se comprazia só mesmo em participar da corrida, e deixava a bola para sua mãe pegar, voltando alegremente, sem bola nenhuma, para continuar a brincadeira. As poucas vezes que conseguia as bolinhas corria para debaixo das camas, ou punha apenas a cabeça embaixo delas, porque sabia que lá a Nina não iria entrar pois está um tanto gordinha e não tem espaço para isso. E lá ficava até que a Nina desistisse de esperar sua saída.
Muito engraçada era a posição que ela gostava de ficar: no ângulo ou encontro de duas paredes da minha cozinha, de modo que seu corpo encostasse em uma parede e sua cabeça na outra parede. Parecia desconfortável, mas era seu cantinho preferido. Eu dizia: “Mell, você vai ficar com dor no pescoço!”. Ela então abanava seu rabinho, feliz.
Quando precisava tirar pêlos embolados ou durante a secagem nos banhos, ela erguia a cabecinha, se esticando como se quisesse facilitar o trabalho. Era uma graça!
Lhasa Apso, raça dos pequenos cães guardiões, era sua linhagem. E, talvez por isso mesmo, que tragicamente ela se foi. Sempre que ouvia algum ruído diferente ou latido de algum outro cachorro, saía disparadamente, para defender seu espaço. Na última dessas defesas, encontrou o portão aberto, saiu para a rua e foi atropelada, fatalmente.
A lacuna que ela deixou é grande. Tão grande quanto a saudade que sentimos.
Uma pessoa me disse certa vez: “Que os mortos queridos me perdoem. Mas, perder um animalzinho nos deixa tão arrasados quanto perder um ente da família.
E não considero isso nada ofensivo para nenhuma das partes.”
Mellzinha é única, é insubstituível!
Ivete Palharini Martins
Curitiba, 23 de janeiro de 2011