Buddy

Caro Amigo Leandro Granato e Família,
confesso a você que nos dias que antecederam a minha viagem para outros campos, eu fiz uma reconstituição dos vinte anos que vivemos juntos. Comecei pelo dia em que sua irmã foi me escolher, lá onde eu estava com o resto dos meus irmãos. Logo de cara eu simpatizei com ela. Pelo meu instinto, achei que ela era o tipo de pessoa que podia confiar. Comecei a fazer um monte de traquinagens. Passei por cima dos meus irmãos, pulei no sofá onde ela estava sentada e subi no colo dela. Lembro-me dela dizendo: pronto, ela me escolheu!
Chegamos em casa você me apresentou um brinquedo chamado quiqui, uma coisa fofa e gostosa de morder, fazia até um barulho engraçado. Naquele dia mesmo você me deu um nome, no início achei ele estranho mas com o tempo passei a gostar dele. Logo quando cheguei em casa achei que todo aquele espaço seria meu, todo meu, puro engano, você não deixava eu chegar perto de lugares quentes para que eu não pudesse me queimar, também não deixava eu chegar perto de janelas, não deixava portas abertas a fim de me proteger. Eu adorava brincar, subir e descer da cama, correr pela casa toda, adorava viajar pra praia com a “mamãe” Ideli Granatto e com a Caroline Granato, muitas vezes elas me levavam para um lugar estranho onde um cara todo de branco me enfiava uma agulha e o nome daquilo era vacina. Eu fui crescendo e meus dentes passaram a ficar fortes e me mostraram um ossinho chamado Biscrok e um outro branco chamado Ossiti, era muito gostoso e quando tentavam tirar de mim eu rosnava, eu adorava aquilo. Em noites de festas como ano novo sempre tinha alguém na casa comigo, e vocês sempre tamparam minha orelhinha, e aquele som que era alto já não me assustava tanto. Me sentia bem, todos passavam a mão em mim fazendo carinho.
Eu fui crescendo, ficando mais velho, até já não conseguir enchergar, mas conseguia ouvir, parei de andar mas sempre ganhava comida na boca e nunca deixaram de me levar ao Tal homem branco no qual conseguia ainda lembrar de sua voz.
Muitas noites eu latia mesmo sendo tarde,queria apenas mudar de posição eu já não levantava, já não tinha forças para fazê-lo sozinho ou então estava com fome e também não conseguia me alimentar.
Muitas vezes eu vi seu sorriso, outras tantas ouvia sua voz trêmula e sentia as lágrimas escorrendo do seu rosto, a soluçar de dor sem saber o que estava acontecendo, ví você perder noites de sono e caminhar pela casa pensativo. Um dia você disse ao meu ouvido que me amava várias e várias vezes me fez um carinho tão gostoso, me levou ao tal homem de branco que me fez um tratamento e passei a sentir menos dores. Os meses foram passando e sentia você preocupado novamente, a sua preocupação e dor quando o veterinário falava com você. Eu não queria ser um motivo de tristeza pra você, afinal de contas você não imagina o quanto eu fui feliz ao seu lado, pensei nos momentos de alegria que passamos juntos.
Amigo, deixo meu bichinho todo mordido e babado para o próximo amigo que você tiver, que ele não corra atrás dos passarinhos.
Leandro, Carol,Ideli, me desculpe ter dormido para sempre num dia tão chuvoso, não era possível adiar tanto sofrimento, gostaria que você soubesse que sempre estive ao lado de vocês e se um dia sentir um vazio, basta ficar em silêncio e fechar os olhos e pensar que um dia estaremos juntos novamente.