BELLA

Amor da minha vida, estou com dificuldades para transpor em palavras o que foram os nossos últimos dias. As complicações inesperadas decorrentes da sedação de um exame, aliadas a algum problema preexistente que não fomos capazes de detectar a tempo e à sua cardiopatia interromperam, a meu ver precocemente, sua passagem por aqui.

Sempre achei simbólico o fato de termos nos encontrado em um 04.10. Para mim, era apenas mais um sinal do quanto São Francisco abençoava nossa união. Lembro-me tão bem de entrar no cercado da campanha onde você estava para agradar o Dolby, meu resgatado, e, quando me sentei, você veio para o meu colo. Eu te agradei e te tirei do colo, você voltou. Repetimos esse agradar-tirar-voltar mais três vezes, pois eu sou taurina teimosa e você, que já sabia das coisas melhor do que eu, insistiu e me convenceu de que seu lugar seria ali, no meu colo, para sempre. Como só poderia te levar para casa dias depois, fiz a Denise me jurar que não te divulgaria nas redes sociais, tampouco te levaria em campanhas.

Saiba que te adotar foi a decisão mais acertada da minha vida. O voluntariado no Tomba Latas fez virar na minha cabeça a chavinha do #nãocompreadote e eu, presunçosa e ingenuamente, resolvi adotar uma adulta para ajudá-la, já que a maioria das pessoas só tem olhos para filhotes. Sim, eu achei que era eu quem estava a ajudar nesta história. Ledo engano! Você veio naquele 26.10.14 como lar temporário, pois eu tinha receio de que não se acertasse com a Bria. Devo ter sido um dos LTs mais curtos da história porque, em poucos dias, já não imaginava esta casa sem você. Chegou aqui com medo de elevador. Superou. Chegou sem sustentar um olho no olho. Superou. Chegou com medo de pés (era impossível cruzar pernas na tua frente que você saía correndo). Superou. Chegou sem saber andar na guia. Superou. Chegou achando que era preciso proteger sua comida. Superou. E, no meio desse rol meramente exemplificativo, eu, de camarote, assistia embevecida a cada superação. Sempre fui orgulhosa da sua evolução!

No dia em que você chegou, te fiz uma promessa: que daquele dia em diante você seria feliz, que a parte ruim da sua vida tinha ficado para trás. Por conta dessa promessa, você me fez de gato e sapato a vida inteira, fazia e conseguia de mim o que bem entendesse. Certa vez o veterinário de medicina chinesa me disse que você me chantageava emocionalmente e me manipulava. Respondi “eu sei, sou uma submissa consciente e feliz”. Ele riu, achando graça da minha piada – mal sabia ele que era a mais pura verdade. Provas disso são que eu nunca fui capaz de pesar a minha própria comida, já a sua alimentação natural era pesada religiosamente a cada refeição (menos quando você ganhava lascas de pastel na feira e quando tinha peixe, porque você amava; nesse dia, os 35g de proteína viravam, bom…deixa pra lá – peixe é saudável mesmo, né filha?) e eu achava incrível sua aptidão para frutas, mas não curtia sua birra com o inhame. O teu shampoo hipoalergênico sempre foi bem mais caro do que o meu. Toda noite você me fazia de trouxa ao querer subir dezoito mil vezes para o terraço, às vezes para xixi, às vezes só para dar um rolê, e lá íamos nós, escada acima e escada abaixo, infinitas vezes, tantas quantas você desejasse. Os seus medicamentos do coração foram ministrados diariamente com precisão cirúrgica – o controle pendurado na porta da geladeira até ontem não me deixa mentir. Ah, tinha também passeio na garoa – você de capa (ok, eu sei que você odiava) para não molhar as madeixas, eu com a juba frisada. Eu sempre fiz tudo sem querer nada em troca, pois a sua existência já me era o bastante, mas o lindo de vocês, cães, é o fato de nunca deixarem as relações afetivas serem uma via de mão única. Você também me cuidou muito. Você era o meu solzinho particular que brilhava todo santo dia, mesmo quando o céu de Curitiba estava cinza, mesmo quando fazia céu nublado dentro de mim. Você me fez companhia nos estudos, me esperou diariamente na saída do trabalho. Você me ajudou a superar o luto da Bria (eu chorava, mas saía passear contigo; ficava triste, mas tinha que preparar tua comida; ficava mal, mas tinha que te dar atenção quando seus olhinhos atentos me fitavam – quando me dei conta, o fardo pesado da perda tinha se transformado em bonita saudade). Você ficou braba quando eu viajei no Carnaval e me ignorou quando voltei, mas foi eu cair gripada na cama que você veio deitar-se ao meu lado. Você cuidou do meu pai quando ele mais precisou, a ponto de me abandonar para cuidar dele de uma forma que eu mesma jamais teria sido capaz de fazer. Tua presença era curativa. Tua existência era curativa!

Eu sempre tive curiosidade em saber qual era sua idade exata. Às vezes era consumida por uma preocupação e pelo desejo de que você chegasse ao final da vida tendo passado mais tempo comigo do que antes de chegar a mim. Como disse tia Denise, “não sei se ela passou mais tempo de vida com você, mas sei que a melhor parte da vida foi com você”. Espero, honestamente, que assim tenha sido. Sempre fiz suas vontades na ânsia de compensar o inferno que você viveu antes de ser resgatada, numa tentativa diária de fazer com que, ao final, a balança da vida pendesse mais para o lado positivo.

Eu tinha a pretensão de te ajudar, mas sempre disse que você me resgatava diariamente. Até minha preguiça de socializar com estranhos você mudou, pois a cada passeio vinha alguém dizer o quanto você era linda, qual era a sua raça, e eu, orgulhosa da minha filhota, era obrigada a agradecer, concordar e conversar. Aliás, você era sucesso garantido nos passeios! De todos os meus cães, foi disparado o que mais chamava a atenção. Se eu ganhasse um real a cada “Chama-se Bella? Que nome bem dado!”, eu já estaria ryca – mérito seu, pela beleza, e da Tina (que não queria cachorro, mas que sempre te amou muito), pelo batismo.

Desde terça-feira passamos dias intensos e madrugadas em claro, quando, na quinta-feira de noite, decidi que era preciso te internar. Beijei sua cabeça e prometi voltar para te buscar na alta, pois tinham me dito que se tratava apenas de uma gastroenterite. Apesar de eu sentir que tinha algo errado, intencionava com todas as forças voltar para te buscar. Quando você passou pela porta do internamento, meu coração estilhaçou. Na madrugada de quinta para sexta eu acordei de supetão às 2:30 sentindo profundo mal-estar físico. Imediatamente, pensei em você. Olhei o celular e não tinha mensagem da clínica. Passada uma hora, fui informada de que seu quadro havia piorado. Logo após, recebi a notícia de seu óbito. Fiz um pedido à veterinária: não faça nada nela até eu chegar. Lá chegando, perguntei a hora que você tinha começado a desestabilizar. 2:30, claro. Por algum motivo ilógico, levei seu crocodilo preferido e sua manta azul para que também fossem enviados ao crematório, afinal, você sempre teve muito zelo com as suas coisinhas né? Botei a nossa música de São Francisco para escutarmos juntas uma vez mais. Te agradeci por tudo, por tanto, pedi desculpas, beijei sua cabecinha cabeluda e falei, pela bilionésima vez, o quanto te amava. Você teria feito aquela cara de “de novo isso, mãe?”. Pois é, sempre quis que você tivesse certeza do quanto era amada. Talvez tenha falado em excesso, mas foi por sentir em excesso também. Saiba que te amar foi fácil demais, pois você, mesmo tendo sido tão maltratada, sempre foi um poço de doçura e carinho que se exteriorizava no seu queixinho apoiado no sofá pedindo autorização para subir (como se precisasse…rs), no encontro do seu focinho gelado com meu nariz, no seu corpo quentinho em cima do meu e nos seus olhinhos meigos me fitando quando eu te pegava no colo para desafinadamente cantar “coisa linda” e “quando deus te desenhou” nos seus ouvidos.

A casa segue estranha sem você. Eu sigo estranha sem você. Cuidar de você estava tão internalizado em mim que eu fazia as coisas no automático. Aliás, sigo fazendo. Despertei às sete da manhã de domingo para te levar fazer xixi. Pulei do sofá às 12:30 para pesar tua comida para o almoço. Fiquei de olho para ver se a chuva diminuía para que pudéssemos passear. Escutei teus passos fazendo “pec-pec” no piso de madeira. Antes de sair de casa, tive a preocupação de fazer tudo rápido para que você não ficasse muito tempo sozinha. Acho que vou levar um bom tempo pra me desacostumar de nossos hábitos.

Eu queria TANTO ter te segurado por mais tempo aqui comigo! Mas a vida às vezes tem dessas…esfrega na nossa cara o quanto não temos controle de absolutamente nada. Chega um momento em que não tem jeito: nosso espírito escapa da matéria que nos prende. Somos mesmo poeira ao vento. Eu desejo que teu espírito amoroso e gentil se espalhe pelo vento, pela areia da praia onde te levei, pelo céu, pelo mar, por essa casa que sempre será sua, em volta de mim. Nossos espíritos foram mais felizes desde que nos (re)encontramos e estamos conectadas para sempre. Você, galega, é boa demais para ter desconforto, para ficar limitada a um corpo físico que não condiz com a grandeza da tua alma.

Voa livre, Belluska! Voa livre que eu voo junto contigo ligada pela imensidão do amor que sempre nos uniu!