“O cachorrinho teve a mesma reação de ciúmes com as cinzas que sempre teve com seu amigo em vida”!

Léia nos conta histórias incríveis vivenciadas no Pet World e responde nossas maiores dúvidas quanto a seu trabalho.

– Na foto da cliente Riuko Mori, a recepção da pet Hime, que esteve no Pet World  para se despedir de seu amigo Anakin. Ela ficou ao lado dele o tempo todo numa despedida emocionante.

 

Ela é uma das idealizadoras do grande projeto de vida que é o Pet World, criado em 2003 e pensado para resolver o problema de muitas famílias que não sabem, ou não sabiam  lidar com a dor e o luto por seus pets. São muitas histórias lindas vividas nesta trajetória de cuidar do próximo num momento tão delicado. Por isso, resolvemos separar 10 perguntas para esta figura do mundo pet, com as maiores curiosidades de nossos leitores e seguidores nas redes sociais quanto a esta profissão tão diferente e que pode fazer a diferença na vida de pessoas em sofrimento pela perda de um amigo.

1 – Por que trabalhar com pets ? Como surgiu a ideia de criar o crematório de animais ?

Desde muito pequenos eu e meus irmãos tínhamos o hábito de zelar pelos nossos bichinhos
que partiam. Antigamente animal doméstico era limitado a comida e proteção, porém sempre
tivemos um afeto maior e cuidado com eles. Certa vez, nós sepultamos um periquitinho nosso em uma latinha de sardinha cheia de flores e chamamos nossos amiguinhos para se despedir. Então percebemos que era algo tão natural pra nós conduzir nossa dor pra ficar mais leve o momento (pois aquilo nos confortava), e quem sabe ali já estava um sinal de nossa missão.

A ideia surgiu na perda de nosso Cocker Zucchero, que infelizmente teve um destino desconhecido, afinal, há quase vinte anos, esse cuidado não era algo público e as clínicas davam o seu melhor no descarte do corpinho, pois aquilo que queríamos não existia em nossa região.

2 – Como você faz para tornar um local de luto e despedida em ambiente de amor e tão
apreciado pelas famílias?

Primeiramente, entendemos que cada família tem uma história única e que aquele ser especial
que chega, molda com a família uma convivência singular, no resgate de sentimentos ora
perdidos por traumas, medos, solidão, ou mesmo por trazer uma alegria especial ao lar. Nossa
equipe é muito especial (digo que são escolhidos por Deus para estarem conosco) pois têm seus pets e sabem que por serem únicos, o tratamento de cada cliente precisa ser individualizado, respeitando as vontades específicas da família, pois dando a oportunidade de expressarem a própria dor ao seu modo, é aquele mesmo processo que encontrávamos na infância quando conduzíamos a nossa saudade, de acordo com o que pedia nosso instinto para tornar a dor mais leve.

E assim acolhida, a família como parte do processo sabe que sem discriminação ou medo pode exprimir o que lhes aflige, pois junto com aquelas lágrimas existem muito mais motivos que o próprio óbito… existe gratidão, amor, fidelidade, companheirismo e é isso que extraímos da dor : esse amor !

3 – Você já teve de lidar com um bichinho seu, da sua família ?

Tivemos que lidar com várias perdas nossas e um fator muito interessante é que ao cuidar de
cada pet que chega a nós, encontramos uma maneira de expor os cuidados que desejamos ao Zucchero quando partiu e não tivemos. Quando perdemos os nossos amigos, sabemos exatamente o que cada família precisa, pois o que nos falta nesta hora, falta a eles e por isso quando zelamos pelo emocional de nosso cliente, eles não imaginam o quanto nos conforta também, pois doamos no abraço aquilo que mais gostaríamos de receber na perda de nossos
pets : compreensão e carinho. Sofremos também e isso nos dá forças para acolher uma dor que também é nossa, pois temos os nossos amores.

4 – Qual seu maior aprendizado nestes anos todos ?

Que por trás de cada pessoa existem lutas e batalhas internas e independentemente da classe
social, do gênero, idade, vê-se a importância dos animais em tornar os processos traumáticos
ligado às experiências humanas, ou o próprio viver cotidiano muito mais leve.

A chegada de um pet na vida de uma pessoa, carrega muito mais do que apenas companhia :
ela traz superações e um vínculo que não se vê entre as pessoas. Seja pela bondade deles em
entender nossas falhas, não havendo divergências de opinião, sendo um ser que não vê nossos
defeitos, apenas amor em nós. E por isso aflora em nós esse amor por eles também ; o ser humano por si só carrega em suas experiências momentos bons, momentos ruins e sempre haverá entre eles um pet abanando o rabinho, miando, cantando e isso evidencia a fidelidade que o ser humano ama em seus animais. Que em todos os momentos de sua vida teve um serzinho com quem pôde contar, não em palavras, mas para jogar a bolinha, acariciar no colo, para abraçar e chorar ; o pet esteve ali mostrando estar muito mais ligado ao emocional da
pessoa, que no interesse de sua fala, de sua posses… ganhar um biscoito, apenas querer estar ali, do ladinho da família, e isso afaga o ser humano. Ou seja, tão pouco para doar, mas sendo tudo que eu preciso e isso nos mostra que lidamos com o sentimento mais lindo em todas as línguas ou na ausência das palavras : o verdadeiro amor que existe dentro das pessoas. Entendemos também que pessoas que têm seus pets, possuem uma generosidade e ajuda para com os seres humanos, e demonstram no silêncio de seu gesto, em ações voluntárias aos irmãos necessitados, desmistificando a tese de que « amam somente seus pets». Os animais trabalham esse senso de humanidade e por eles, as pessoas se tornam mais sensíveis ao sofrimento alheio, seja humano ou animal.
Deus sabia o que fazia quando colocou os animais na vida do ser humano.

5 – Você já sofreu muito atendendo uma família, com uma história triste ? E como se mantém tranquila para trabalhar ?

Sim e não foram poucas vezes! Acho que em todas elas, estando a família presente ou não no
atendimento, olhar para aquele pet, é sentir o emocional da família, sua dor, sua saudade
em todos os atendimentos, porque tem uma história alí que desconhecemos, mas que por termos sido
chamados, sentimos que foi um ser muito especial na vida de alguém. Vou revelar um
segredo : é como viver todos os dias o filme « Marley e Eu, Para sempre ao Seu Lado », pois
todas as histórias são carregadas de grande emoção. Mas as pessoas perguntam : – « como
vocês conseguem lidar com tantas dores num único dia, de tantas famílias ?! Haja
coração ! » A família não imagina que quando ela nos entrega seu pet, ela está nos confiando
sua história, sua vivência de amor, suas lembranças, e sem nos conhecer, nos entrega esse
amor e para nós é uma honra poder ter a chance de fazer aquilo que gostaríamos de receber
se estivéssemos naquela situação. Nosso coração apenas tranquiliza quando sabemos que
cumprimos nossa missão de acordo com o desejo da família, pois aí está o processo de cura da
dor da saudade, transformando-a em boas lembranças.

6 – Qual foi o animal ou a história mais inusitados com o qual você já lidou?

São muitas mas por neste caso percebi que nosso trabalho vai além de nossa compreensão. É
mais sério do que imaginamos e que não trabalhamos com sentimentos frios, inflexíveis.
Logo no início do Pet World, realizamos um atendimento em Florianópolis e a cliente nos
pediu um procedimento individual. Naquela época, nós buscávamos os pets em Floripa,
trazíamos para o crematório e levávamos as cinzas depois. Desde o primeiro contato a cliente
demonstrou mesmo à distância uma grande confiança em nós. Buscamos o amiguinho dela
numa clínica veterinária e não tivemos contato pessoalmente com nossa cliente. Na devolução
das cinzas, eu mesma estive na residência da cliente, sentamos num pequeno lounge que ela
tinha perto da piscina e não me esqueço daquela mesinha de centro não muito alta, na qual
pedi permissão para colocar a urninha enquanto mostrava para ela o certificado. O amiguinho
do cocker que cremamos não saía de nosso entorno e não tirava os olhos de nós duas.

Um tempinho depois de conversar comigo e limpar suas lágrimas, a cliente então esticou as
mãos para pegar a urna sobre a mesinha e o pequeno Lhasa (se não me engano), avançou em
nossa cliente mordendo suas mãos. Ela começou a chorar muito e eu fiquei com medo de uma
reação negativa e de ser mordida também. Foi aí que a cliente me disse : « você não precisa
me dizer que são as cinzas dele Léia, eu tenho total convicção que é ele ! », e em prantos me
abraçou chorando. Eu perguntei então « mas você está machucada, o que houve para ele te
morder ?Ela me respondeu: “Ele (fazendo menção ao lhasa), teve a mesma reação de
ciúmes com as cinzas que sempre teve com seu amigo em vida! Meu Deus, o que é isso?”.
Triste mas ao mesmo tempo reconfortante! E me contou que ele sempre foi muito ciumento
com o amigo, e o próprio veterinário precisou continuar o tratamento do Cocker que
cremamos na clínica pois o Lhasa não deixava o veterinário se aproximar do amigo.

Voltei naquele mesmo dia para casa atônita, pois sentia uma nobreza no que fazíamos, e daí
pra frente seguimos com a certeza, ao testemunharmos essas histórias, de que existia algo
mais belo em nosso trabalho do que poderíamos imaginar.

7 – Quando o cachorrinho Skiper do batalhão do Bope faleceu, você esperava tanta comoção na mídia e redes sociais ?

Na verdade não esperava, pois a experiência com o Skiper, vivemos sempre com os
clientes, mas não registramos por privacidade. A reação da Raika ao se despedir do Skiper foi
registrada pelos nossos colegas do BOPE e divulgada por eles pois realmente foi
voluntária e verdadeira a expressão dela naquele momento, o que surpreendeu a todos.

Impossível não se emocionar  quando os pets demonstram seus sentimentos nesta hora!

8 – Já viveu no pet alguma experiência, digamos, mística ?

Já sim e muitas, mas é algo tão intenso que, quem não vivencia pode acreditar que se trata de
hipótese ou devaneio. Vou relatar uma bastante marcante para mim e a família.

Nossos clientes tinham (ainda hoje têm) uma família pet grande e como diziam eles, bastante
barulhenta. Era só tocar o primeiro interfone e os latidos se escutavam naquele andar térreo
do edifício. Nossos clientes fizeram um planinho de cremação e foi assim que me receberam
no toque das campainhas na assinatura do contrato : de maneira bastante calorosa, com
latidos, correria, festa mesmo…! (risos)

Pouco tempo depois o amigo mais velhinho, um Poodle, o «  patriarca » da turminha, partiu.
Foi um momento de muita emoção para nossos clientes que esperavam ansiosos « pelo
retorno » dele através das cinzas.
Ao chegar na residência com as cinzinhas, esperava aquela recepção calorosa, mas, apertei o
interfone e, silêncio absoluto. Nosso cliente Fabiano abriu a primeira porta e quando apertei o segundo
interfone, mais silêncio. Confesso que estava esperando os latidinhos e então achei que
estivessem em algum cômodo da casa que não pudessem ouvir, mas, ao abrir a porta, Fabiano caiu em prantos, pois todos estavam com ele me esperando para receber o amiguinho
e como em sinal de respeito, não expressaram nenhuma reação de latido ou rabinhos
abanando com a minha chegada. Ficaram quietinhos olhando pra caixinha em minha mão e
mais uma vez senti um mistério tomar conta daquele momento !

Nosso cliente, chorando, colocou a caixinha com as cinzas do Tobias no chão e ficaram todos
ali em círculo – pareciam até que tinham combinado aquele gesto entre eles de tão perfeito o
cuidado – e após « receberem » o amigo Tobias, começaram a se movimentar com alegria e
mais expressivos. Ao sair, só me deram carinho, porém nada de latido.
Aquilo nos marcou profundamente e reforçou o mistério que envolve o que fazemos.

Tem um gatinho de um cliente que não adentra o quarto onde estão as cinzas de sua
mãezinha. Por isso, cada pet é um e revelam isso também nas horas de nossa emoção. Eles nos
falam de coisas maiores que existem através de suas reações e se não fosse a testemunha
compartilhada, dificilmente alguém acreditaria.

9 – Você já teve algum problema durante uma cremação?

Graças a Deus não, pois da chegada ao crematório até a cremação, o cliente vai encontrando
paz e tranquilidade em poder estar ao lado do amigo, como este sempre esteve ao seu lado.
Dar ao cliente o direito de assistir a cremação, é permitir que ele escolha se quer ou não ver,
promovendo assim o desenvolvimento emocional e uma compreensão do processo de
maneira que ele entenda que ali está um novo começo e não o final! Muitos vão convictos de
querer ver o processo do início ao fim, mas chegando ao local, acompanhando o início,
definem o que lhe fará bem ou não, e isso evita descargas emocionais negativas.

A paz que lhes toma os sentimentos quando chegam no pet, fazem o retorno com as cinzas do amigo ser
um processo sereno de recomeço. Não um recomeço com a mesma matéria física, mas com a
energia de amor que continua entre eles pelas melhores lembranças. Talvez seja essa a missão
mais linda de nosso trabalho : extrair o verdadeiro sentimento daquele momento e eternizá-lo
e não fixar na morte como ponto final.

10 – Algum tutor já se arrependeu no meio de uma cerimônia de cremação?

Não. Quando chega no processo da despedida, os clientes já estão bastante certos da escolha.
Damos um amparo emocional neste momento e o fato de levar para casa as cinzas sem correr
o risco do corpo permanecer com o corpinho após o óbito, leva as pessoas a ter definida a
escolha.

Esperamos que com as experiências relatadas, possamos tocar no coração das pessoas sobre os mistérios que empermeiam esta linda amizade que nem a morte é capaz de apagar.

Até a próxima no Blog Pet World!